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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Ritual para dançar

Dançar é entre todas as coisas que já tive contato, sem dúvida a que eu mais gosto de fazer, sendo assim dou sempre o meu melhor pra ela. Esse melhor aparece de várias maneiras, vai bem além de uma maquiagem bonita e de conhecimento técnico.

Palco. Enquanto me arrumo e preparo o cabelo, já começo a me concentrar naquilo que irei fazer.
Antes de entrar no palco meu ritual fundamental é o de me centrar, aterrando a concentração enquanto aqueço o corpo. Se estiver junto com uma grupo reúno todos em círculo e fazemos um oração de fé, com o intuito de integrar aqueles corações ali presentes "no mesmo barco", agradecendo a oportunidade, trocando e dividindo com todos a energia daquele momento único (isento de religião).

Aulas. Independente se estou fazendo a aula ou ministrando ela o "meu melhor" aparece em todos os detalhes, pois aqui o objetivo também é estar focada no que estou fazendo. Então faz parte do meu ritual chegar sempre cedo, alguns minutos antes da hora, estar bem arrumada com tudo em ordem, com roupas limpas e costuradas, ir/estar bem alimentada, levar minha garrafa de água, me lembrar de retirar brincos e bijuterias, me aquecer em silêncio acordando cada mínima parte do meu corpo, respirando e relaxando sozinha para me preparar pra aula que vai começar, de 5-10 minutos já são suficientes.

Pois pra mim tudo isso faz parte da dança.
E você? Me conta qual o seu ritual pessoal para dançar?


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Motivação e Mudança de Comportamento

Está chateado com o Ballet? Suas aulas parecem ser sempre iguais? Precisa de estímulos para continuar? Faz aulas mas não vê grandes mudanças no seu corpo? Muita coisa pode estar acontecendo... Você já se perguntou o motivo desse desânimo?

Sobre a  aula: Bom, uma aula de ballet sempre obedecerá uma estrutura já bastante conhecida, basicamente essa estrutura em si nunca vai mudar, e ainda tem uma ordem pré-estabelecida (aquecimento, barra, alongamento, centro e coreografia ou pontas). Como professora posso pensar em fazer algumas variações dentro dessa “estrutura” sem cair na rotina para estimular os meus alunos, como: adicionar passos novos, mudar as seqüências a cada aula, trazer novos estímulos musicais semanalmente, fazer uma aula especial só com alongamento ou só de consciência corporal etc.

Se é pelos resultados: Basicamente eles irão aparecer no corpo a médio-longo prazo, é assim mesmo, tem que insistir e focar no que se quer. Outro fator é o número de aulas que vc faz por semana, quanto mais melhor. Você tem faltado muito ultimamente? Isso afeta o resultado também, você perde o vínculo com o desenvolvimento da turma e de desmotiva.
Outro fator determinante para perceber os resultados é a concentração e empenho, que estão ligados à qualidade de como você realiza os exercícios. Note se está apenas cumprindo o que o professor propõem ou tem foco na transformação?

Todo bailarino adulto tem a tarefa de lidar com seus próprios limites físicos, além de ter a coragem suficiente para transformar seu corpo milimetricamente a cada aula, sempre em doses homeopáticas.
Conforme praticamos, o trabalho do ballet vai cada vez mais se aprofundando no corpo. É uma coordenação fina da musculatura, da alma e da mente, mesmo que leve anos pra isso acontecer. Sempre que uma atividade física é interrompida o desenvolvimento pára de ocorrer. No caso do ballet se você faltar na aula por uma mísera semana quando voltar sentirá que não fazia aulas há anos.
Como escrevi em outro artigo, a ansiedade deve ser domada enquanto continuo praticando sem parar, é aí que está a arte. Sendo assim posso sempre escolher: desanimar frente às dificuldades ou me “vencer” e continuar em frente.

Algumas dicas para seguir firme e forte:
- Foque cada aula com um único objetivo a cumprir, por exemplo: “hoje vou fazer 1 pirueta limpa” ou “quero conseguir fazer bem os 32 changements propostos”, não parece mas isso já é bastante trabalho.
- Escolha e se concentre no trabalho estrutural de uma parte do corpo por aula. Exemplo: “hoje vou me dedicar aos músculos de en-dehors e só”, no outro dia “quero focar na qualidade do olhar”, e assim por diante, já é material suficiente pra meses de estudo interno.
- Lembre do seu sonho inicial e traga ele a tona novamente! Qual foi mesmo o motivo original que te levou pra aula de Ballet? Se pergunte e responda claramente por que resolvi faz Ballet? Guarde a resposta.
- Pode ser que você esteja descobrindo que sua “praia” não seja o Ballet. Normal, a vida tem dessas e mudamos de fase. A gente investe em algo por anos a fio e de repente percebe que não é bem isso que queremos mais. É normal mudar de gostos, tente outra dança ou outra prática corporal.
- Mude tudo: converse com um colega que nunca tinha notado antes, troque de lugar na barra, faça a aula de outra turma em outro dia/horário, mude o cabelo no jeito que você faz o coque, ou ainda estreie um colant novo, de preferencia de uma cor inusitada.
- Fale com seu professor em particular e conte seu problema. Acredite, se ele for sensível o bastante com certeza poderá te entender, te ajudar e fazer muitas coisas para melhorar sua relação com as aulas de Ballet.
- Deixa a dança te levar... todo mundo tem um ou mais dias ruins, às vezes péssimos. Nesses dias ruins é legal ir sim fazer aula, com as músicas, os colegas de sala e os movimentos a dança nos envolve e a transformação está feita. Basta deixar a mágica acontecer e se entregar. A dança tem o poder de mudar nosso estado físico-emocional drasticamente sempre para melhor.
- Cansou da sua professora? ou daquela turma? será que o cansaço está em ir sempre pra mesma escola? talvez seja o fim de um ciclo ali, naquele local ou com aquelas pessoas. Considere fazer aulas em um novo estúdio, fazer novas amizades, ter novos desafios, traçar uma outra rota no caminho para chegar lá...
- Já recebi emails de alunos que odeiam dançar no palco, e só de ouvirem falar a frase "espetáculo de fim de ano" fogem das aulas e para de dançar ou alguns só voltam no próximo ano... o que é normal, mas merece um artigo exclusivo só para esse assunto. 
- Em último caso dê um tempo nas aulas. Ás vezes a distância faz a gente enxergar melhor nossos objetivos. Pode ser que você volte correndo, com uma vontade louca de aprender mais ou realmente deixe de lado pra sempre. Mas se você se arrepender depois, não importa quando, mas volte! Volte mesmo.
- E se você resolver ficar e continuar seja sincera e pergunte pro seu coração: “O que te inspira e te mantém ali?”. Pode ser que seja uma imagem, ou conseguir realizar um desafio, atender um sonho do passado, sentir a sensação daqueles passos... Quando encontrar sua inspiração pessoal volte a conecectar-se a essas coisas nos momentos de desânimo, sempre funciona.
Beijos e boa sorte!
Ana




domingo, 17 de abril de 2011

Respostas sobre dança e obesidade.

Geralmente as peguntas eu respondo numa página só para isso. Porém, nas últimas semanas, recebi uma grande quantidade de emails com o mesmo assunto. Por perceber o quão comum é essa situação vou responder diretamente como um artigo. Os nomes dos autores foram trocados para evitar qualquer tipo de constrangimento.




Pergunta: "Olá! Meu nome é Cíntia, tenho 23 anos, e tenho problemas com peso, sou obesa, mas estou em fase de emagrecimento. Tenho muita vontade de fazer balé e de realmente um dia consegui ficar na ponta dos pés. Será que isso é possível?"

Resposta: Realmente há sim uma grande possibilidade de você conseguir. Mas antes disso você terá que começar um conjunto de ações combinadas para a médio prazo chegar ao grande dia, como uma reeducação alimentar séria, programa de exercícios (podemos considerar o balé como parte disso) e acompanhamento psicológico.
É possível cursar aulas de balé normalmente sendo obesa porém terá alguns cuidados especiais para preservar seu físico e não lesá-lo, por exemplo evitar saltos, cheque com seu professor. Não é o peso que impossibilita seu contato com as técnicas do balé, na verdade já vi lindas bailarinas dançando, até com muito en-dehors, e estavam com sobrepeso, lembre-se que estamos falando de arte.
Note que a construção técnica, como tudo que envolve o corpo, é lenta, profunda e em etapas, envolve consciência corporal, aquisição de força específica, alongamento etc. A média para uma bailarina iniciante chegar às pontas varia entre 1 a 3 anos consecutivos de técnica de balé, pensando em 2 aulas semanais. Claro que há opção de fazer mais aulas semanais e diminuir esse tempo, e que pode variar de pessoa para pessoa, depende de seu aprendizado, estrutura física e genética —, note que estou falando às cegas, sem nunca ter te visto em movimento.
Por hora lembre-se de ser realista quanto aos seus desejos e limitações e procure sempre bons profissionais para te orientarem, tanto na área de saúde quanto na dança.



Pergunta: "Sonho mto em voltar a dançar, tenho 24 anos, mas não sei se devo esperar emagrecer, para evitar lesões e coisas do tipo e correr o risco de nunca emagrecer tb, né? ou se devo tentar agora, com esse meu peso, o ballet clássico e usá-lo como estímulo para uma vida mais saudável. sou diagnosticada com transtorno bipolar de humor, e compulsão alimentar o que vc acha?"

Resposta: Primeiramente acho muito importante ter uma visão equilibrada de tudo que somos, fazemos e sonhamos. Se você tem essa visão de si mesma já é um grande salto para a mudança. Com certeza emagrecer vai te ajudar a ficar mais leve quando estiver no balé, pois em pontas o peso pode ser maléfico para as estruturas dos pés, joelhos, tornozelos e quadris, causando possíveis lesões.
Porém lembre-se que um bom professor só te colocará em pontas quando isso significar um crescimento técnico pra você, ou seja, daqui a alguns anos. Então é normal ficar entre 1 a 3 anos fazendo aulas sem usar pontas, trabalhando a construção técnica, que te prepara para usá-las.
O balé em si pode te ajudar de forma limitada a emagrecer, pois a parte cardio-vascular não é o foco exclusivo da técnica, o gasto calórico é moderado para iniciantes. Mas não deixe de fazer aulas por causa disso, aliás veja tudo com um conjunto de formas de atuação para sua felicidade e saúde, por exemplo: reeducação alimentar, antidepressivos se for o caso, consultas com psicoterapeuta, atividades físicas (balé, dança contemporânea etc), medicina complementar (acupuntura, florais, massagem).
Promova um plano com objetivos e ações reais de transformação, é bem provável que você precise encontrar um grupo de bons profissionais de diversas áreas para isso.
E na minha opinião eu realmente acho que o estímulo para sua boa vida tem que ser você, que é o seu grande objetivo e não o balé, o balé só ocupa parte da sua felicidade. Você é maior, você é o foco.

Quem quiser ler mais: já tinha falado sobre o assunto neste artigo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Quando surge uma lesão e a inventividade.

Esse é um texto que eu queria ter publicado há bastante tempo, vamos lá. Em abril de 2010, tive que me apresentar numa festa em uma das escolas que eu dava aula na época. Por coincidência foi uma fase de muita dor, quase não conseguia andar ou ficar em pé, dei aula sentada alguns dias até. Só pra vocês entenderem é uma coisa que vem lá de trás, resquícios de tendinite, torções sempre no mesmo pé (a maioria na rua), enfim.

Bom, eu pude escolher entre ser realista com minha condição no momento e criar alguma coisa positiva a partir disso, ou eu pirava e não me apresentaria.

A idéia que eu queria deixar aqui, contando tudo isso, é que, se você tiver uma lesão, qualquer tipo, entorse do tornozelo, tendinite, distensão muscular, dor severa, quebra de qualquer parte do corpo ou sofrer uma queda, você vai precisar:

1- Procurar um profissional especializado. Um médico ortopedista ou do esporte, se for algo extremo ou urgente vá direto ao pronto socorro. (e siga todas as recomendações dadas)
2- Ficar calmo.
3-
Parar de dançar temporariamente. Isso mesmo! Saiba que você vai voltar à ativa, porém está se dedicando para se recuperar, e isso não é perder tempo.

Lesões não são dores musculares, como aquelas do dia seguinte, são dores que ficam com a gente quando estamos parados ou enquanto fazemos algum tipo de movimento, inclusive durante a atividade física, — em muitos casos a atividade que mais amamos também pode contribuir para isso.


Terminando minha história foi assim que eu criei o solo 'O que é possível fazer sem os pés', um trabalho coreográfico-performático misturado com improvisação e música de J. S. Bach. A idéia parece limitadora, mas é exatamente o contrário, usar com liberdade o máximo de possibilidades da parte superior do corpo, braços, mãos, cintura escapular, pescoço, cabeça... Notem na foto que não é cenário, eu escolhi estar no meio de um jardim, sobre a terra, isso fazia parte da idéia toda.

Essa é a outra idéia, de que não existe apenas um tipo de dança, um tipo de expressão única, a criatividade é infinita e o uso do nosso corpo também é. Não há limitações para a alma humana se expressar, e se houver não existiria a arte. Reiventar é a idéia principal.

Se um dia não for possível calçar sapatilhas de ponta, não calce. Paciência, o mundo não vai acabar! Isso não é motivo para insistir e se machucar mais ainda. O que é preferível: se arriscar dançando com dor, dançar de forma alternativa ou ficar na platéia assistindo? Nós sempre temos escolha, pense. E lembre de levar em conta o caminho da criatividade. O nosso ideal estético deveria ser mais flexível, e ousado.

(continua...)

sábado, 5 de março de 2011

Os empecilhos, as perguntas e um ponto final.

Ainda recebo centenas de emails com perguntas "eu posso?", "eu devo?", "eu conseguiria?" sempre atreladas a diversos porquês... todas se acham altas demais, baixas demais, gordas demais, velhas demais, pesadas de mais ou de menos, e ainda "tenho pernas grossas", "meus seios são fartos", "minha canela é fina", "perdi minha chance", "deixei passar na infância..." e por aí vai.

Gente, quem é leitor desse blog sabe o que eu penso disso, e se não sober ainda tem um monte de artigos aqui para ler e se informar. Me lembro de já ter abordado esse tema algumas vezes indiretamente, mais diretamente foi neste artigo e na sessão de perguntas.

De uma vez por todas: todo mundo pode.

Não sei qual seu objetivo e nem quanto tempo irá levar para construí-lo, que varia muito de pessoa pra pessoa. Mas sei que é muito chato ter que lidar com preconceitos alheios, dos professores, dos outros alunos, dos amigos, da família enfim, mas sei que é muito pior lidar com nossos próprios... Já é hora de se livrar disso.

Quem quer dançar e estudar com afinco consegue qualquer chegar nos seus objetivos. Falo de quem não tem medo de trabalho, de dor, de suor, de cansaço. As perguntas a serem feitas a si mesmo deveriam ser "quero mesmo estudar?"," estou pronto para me dedicar com afinco?", "gosto de lidar com dificuldades, limites e desafios?", "como encaro minha timidez?", etc.

Para todo mundo dar uma basta e parar de vez com essa insegurança sem fim, (incluindo duvidar de si mesmo) deixo abaixo um vídeo que diz tudo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Espelho, pra que te quero?

Ministrando e fazendo aulas por todos esses anos cansei de ouvir das colegas e alunas que são gordas demais, magras demais, ou altas, baixas, feias, sem talento, tortas, insuficientes, inadequadas, para tudo, em amplo sentido. A tendencia que observo é das pessoas sempre penderem sua auto imagem para pensamentos negativos, com é fácil a maioria cair nisso.

Mas o contrário também acontece, tem sempre aquela colega ou aluna 'sem noção', que se acha a prima bailarina absoluta, uma estrela que ainda não foi descoberta pelo acaso, que sobe ao palco mesmo tendo faltado em mais da metade dos ensaios, que quer ficar na frente do palco mesmo fazendo aula 1 vez por semana, que pede para o professor para estar em diversas coreografias mas tem menos de 1 ano de técnica, que fica no camarim atrapalhando quem está se arrumando, que se exalta em dizer que está no oitavo ano (mas não sabe fazer uma dupla pirueta), que muda de nível sem consultar o professor antes... já estou me acostumando a essas situações, e passando a não me importar mais, de verdade. E eu, que sempre pensei que números não refletissem a qualidade oculta das coisas, inclusive da alma.

Irina Dvorovenko em 'A Dama das Camélias', por Gene Schiavone.


É incrível como temos um visão amplificada de nós mesmos, para melhor ou para pior. E eu me pergunto 'por quê?', se na sala sala onde fazemos aulas todos os dias, há pelo menos um imenso espelho do chão ao teto, em uma das paredes. Para que serve então senão como ferramenta de auto-análise? Fornece além de imagens e formas, alguma pista sobre o que há lá dentro? Acho que na maioria dos casos ele não é visto objetivamente ou não reflete nada. Talvez seja a maneira que cada um tem de fugir da realidade, esse não se encarar como é. Tente exercitar isso, se olhe no espelho e veja, o que ele reflete?

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Gorda(o) para quê? Uma questão de peso.

Escrevi essa texto pois recebo diariamente pelo menos 1 email tratando do assunto, em perguntas como "posso dançar estando acima do peso?", "preciso emagrecer antes de entrar no balé?"... Cansada de responder cada um individualmente aí vai.

Em muitos segmentos da nossa cultura assim como para muitas pessoas a questão do peso é crucial. Na tradição da dança também é, era ou pode ser, se a gente deixar. Nesse blogue eu me dedico a tratar de todos aqueles que querem dançar independente dos padrões pré-estabelecidos, certo? Então porque é preciso entrar em conceitos tão tradicionais nunca questionados?
Já ultrapassamos as expectativas relativas a idade, sexo e experiência anterior mas mesmo assim nossa mente ainda é povoada por esse e muitos outros mitos..."Se não for magra não pode ser bailarina", assim como"Se não tiver até 10 anos não pode entrar no balé", e ainda "Não dá mais tempo para ser profissional"... enfim. Onde o peso realmente vai interferir?


Foto-montagem de Laurie Simmons - Eye to Eye (1983)



O que o peso revela sobre nós?
O corpo é um volume que equilibra dentro de si todos os seus conteúdos além de gordura. Há músculo, ossos, órgãos, pele e demais tecidos além é claro da parte etérea, as emoções, a memória... É tudo tão relativo, a relação entre altura e estrutura corporal, o volume, ,a presença de gordura localizada ou não, a genética, a alimentação, as questões hormonais, a prática adequada de uma ou mais atividades físicas.
Mais uma vez o peso não é grande indicativo, pois as moléculas de gordura são muito mais leves do que as moléculas dos músculos (massa magra).

Espelho
Sinto que as pessoas estão sempre infelizes com seus corpos, e consigo ou acham algumas desculpa para estarem. Mesmo quem é magro nunca é magro o suficiente. Falta aceitação e bom senso.
Muitas vezes a pessoa não tem uma auto-imagem condizente com a realidade, ajustar esse foco é vital para evitar situações que levem ao exagero — como dietas milagrosas, uso de substâncias perigosas, bulimia e anorexia.
Porque tudo de ruim ou tudo de bom na nossa vida tem haver com comida? De celebrações às frustrações, a comida está sempre presente. Os alimentos deveriam nutrir, mas hoje em dia tem outra função, como fonte de prazer. Realmente não temos como nos realizar de outro jeito?
Se você está realmente acima do peso deveria procurar ajuda especializada e se possível combinar uma atuação diversificada de profissionais: endocrinologista, nutricionista, psicólogo e um programa de atividade física personalizado.
Agora, porque realizar seus sonhos, que é uma forma de sentir-se bem consigo mesmo, deveria ser eliminada dessa lista de cuidados?
Sim, além de ser uma arte a dança (e o balé) é uma atividade física bastante completa e também pode te ajudar a perder peso, não fuja das aulas por esse motivo!

Minha experiência sempre me surpreendeu, nunca tive turmas homogêneas em nenhum aspecto, idades diversas, corpos diversos, experiências e expectativas variadas. Tenho algumas alunas considradas "gordinhas" que tem um en-dehors invejável além de um alongamento gigantesco, muito mais do que as bem magrinhas.
Conheci uma bailarina brasileira, lá pelos anos 2000, que nem me lembro o nome, e além de não ter o corpo ideal para ballet conseguiu o feito de ir a Londres tirar seu certificado de "Solo Seal", pelo RAD. Um grande feito, para poucos.
Durante algum tempo eu fazia contato-improvisação (é, rolando no chão e sentindo o corpo do colega sobre o meu) e durante os exercícios em duplas percebia claramente que as pessoas consideradas com sobrepeso são muito mais leves do que as magras.
Em contrapartida existem as escolas tradicionais de balé, que até hoje em dia pesam suas alunas, controlam o peso, conversam com as mães, sugerem dietas e que o peso influi na nota e na média anual que aparece no boletim.
Claro que essa realidade existe nas escolas de formação profissionalizantes, onde os alunos entram durante a infância e serão preparados por anos a fio para atuarem em companhias de dança do mundo. Ou seja, se você pretende entrar para o Ballet Kirov, Bolshoi, Royal, ABT entre outros prepare-se para se preocupar de verdade.
Caso contrário, se na sua escola de dança há algum tipo de discriminação quanto ao peso talvez seja a hora de reavaliar se você realmente está num local adequado.

Onde entra a técnica?
Ter, manter e desenvolver, força, consciência corporal e alongamento não tem nada haver com sobrepeso, dominar o uso do corpo tampouco.
O balé vai requerer muita força de regiões pouco requeridas em outras práticas como nos pés e tornozelos. E se você não tiver domínio técnico suficiente isso sim pode prejudicar ligamentos e tendões.
Conseguir elevar-se em saltos, elevés, relevés, equilíbrios, meia-ponta e em pontas tem muito mais a ver com como você usa e controla seu corpo do que com seu peso.

Em suma a aula de balé é sempre desafiadora pra quem quer que seja, independente do volume corporal.
Não invente motivos para não praticar dança, estar na aula não é o mesmo que estar no palco se apresentando, é um aprendizado para si, uma construção contínua e pessoal.
Permita-se ser feliz fazendo aquilo que gosta sem preconceitos.

A "bailarina perfeita" existe sim em alguns lugares, mas aqui por enquanto somos as bailarinas-humanas-melhores-que-podemos-ser.

E mais, queria ir mais longe e deixar uma pergunta pros leitores: O que é importante na dança e onde está a qualidade dela e seu valor? No bailarino que executa, no virtuosismo, na expressividade, na criação?

Beijos p/ todos! Ana

Ilustração feita por mim sobre foto de Alexandra Danilova em O Lago dos Cisnes.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Uma bailarina adulta na novela das 8?

Vi essa chamada institucional divulgando a nova novela das 8, "Viver a Vida" de Manoel Carlos, no intervalo comercial do Jornal Hoje.
Quase chorei de tamanha surpresa e também pelo conteúdo do relato sensível e profundo da protagonista Alinne Moraes, que viverá a personagem Luciana.
Me identifiquei demais com o que ela fala!


A novela estréia hoje na TV Globo, mas não sei como esse assunto será inserido, se será mesmo inserido ou se foi usado apenas para criar uma expectativa durante a fase de divulgação.
Pelo que li no site da TV Globo o tema principal da dramaturgia será "superação" e por aí já dá pra ter uma idéia, pois tem muito haver com a questão de começar o ballet na fase adulta.
Voltando a Alline, a atriz, sei que ela começou a fazer ballet de adulta, a 4 anos atrás como uma atividade que substituísse a malhação tradicional de academia, hoje ela está no quarto ano do ballet e já faz pontas.
De qualquer forma é muito bom poder se ver retratado(a) na TV, ver que existem outras pessoas como eu (como nós!) e esse assunto aparecendo numa mídia de grande alcance e no horário nobre. Quando há mais informação também há menos preconceito.
Pouco a pouco se conhece cada vez mais os benefícios da dança para todas as pessoas, independente da idade, profissão, nível de experiência etc.
Mesmo que tenha sido apenas uma campanha de marketing achei a forma encontrada de falar de um assunto novo, super legal.
Amei! Afinal a cada dia, em tudo que fizermos, sempre seremos alunos nessa vida.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Gravidez, Maternidade e Ballet

Sim, é tão possível quanto realizável. Se você desconfia ou já sabe que está grávida não pense em parar de dançar! (veja alguns exemplos abaixo)
Converse com seu professor e peça que ele lhe oriente sobre quais os movimentos que você pode ou não fazer nesse período tão especial. Pelo menos até o sexto mês de gravidez é possível continuar com as aulas mantendo certos cuidados.
Nas grandes companias de Ballet geralmente as bailarinas pedem um período de licença do trabalho, ficam fora das aulas, ensaios e espetáculos. E só após alguns meses depois do nascimento voltam a ativa progressivamente.

Uma homenagem a todas às mamães dançantes e também às futuras mamães! Parabéns: Dani, Ju e Paty, minha querida aluna.


Do Australian Ballet: as principais bailarinas, Nicole Rhodes e Felicia Palanca apresentam sua prole.


Gillian Murphy do ABT em dois momentos: no palco e já gravidíssima ensaiando.


Darcey Bussel do Royal Ballet: no palco e ao lado com suas duas filhas.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A onda do Ballet Adulto

Estorou mesmo, não sei quem começou ou descobriu mas é sem dúvida a prática do momento. Praticamente toda semana alguém me envia uma matéria que saiu na mídia, impressa ou eletrônica, ou então um artigo, como o dos médicos ortopedistas que indicam ballet aos seus pacientes com problemas posturais ou em fase pré-cirúrgica.
Turma de adultos: iniciando no balé no curso de férias.

Além de todos os benefícios já conhecidos que as práticas de dança oferecem ao ser humano o Ballet Clássico consegue ser uma das mais completas e complexas de todas elas. Desenvolve a auto-confiança, ritmo, musicalidade, coordenação motora, disciplina, postura, auto-controle, concentração, memória, equilíbrio, força, alongamento, expressividade e interpretação artística...
Quanta coisa né?! Considero uma forma de meditação aliada à ação. Fora isso tem um algo a mais, algo de "mais profundo" que não consigo definir de maneira objetiva. Juntar na mesma prática: exercícios físicos + música + alma = totalidade do ser.
Por mais que suave, a música de piano ao fundo dita a dinâmica de cada passo, uma expressão e um tônus são requeridos à cada um deles. A precisão dos movimentos é ditada não só pela capacidade técnica do aluno, mas pela inteligência corporal e concentração total naquilo que está sendo feito. Uma espécie da 'nirvana de corpo presente', um estado de controle e ao mesmo tempo de entrega total. Graça e Força. Leveza e Peso. Expressão e Precisão. Trabalho e Prazer. Emoção e Raciocínio.
A estrutura, os movimentos, o resultado...
É bem fácil se apaixonar pelo ballet. A maioria das pessoas carrega na mente aquela imagem da bailarina perfeita, linda, leve, vestida de cor-de-rosa. Difícil é imaginar o quanto de esforço está por trás dessa imagem, quase mítica. A realidade é bem diferente... uma diversidade de corpos, experiências e idades.


Um motivo a mais para fazer
E como o ballet define o corpo! Durante os exercicios a musculatura profunda é ativada. Gerando um resultado duradouro e sempre de dentro para fora: um corpo forte, ágil e gracioso por muito mais tempo, mesmo depois de parar de fazer aulas (diferentemente de outras práticas corporais). Em pelo menos 6 meses de prática séria é fácil conseguir músculos sutilmente definidos e formas ligeiramente arredondadas. O trabalho cardio-vascular dos saltos, alegros, valsas e sequências também favorece a queima de gorduras.



Imagem mítica: leveza e perfeição (Rachel Rawlins/Australian Ballet)



É fácil se apaixonar pela aula de ballet.
A estrutura e as dinâmicas usadas são fascinantes, ao mesmo tempo artísticas e matemáticas. Estudamos anatomia enquanto dançamos as pequenas estruturas de movimentos. Fazemos uma atividade física completa, trabalhando ao mesmo tempo mente e corpo sempre regado por músicas agradáveis e variadas que acompanham os exercícios desde o aquecimento até as sequencias coreográficas. Desafiamos nossa memória e raciocínio lógico constantemente aprendendo os exercícios. E ainda fazemos novos amigos com pelo menos um interesse em comum. Dá para ser mais feliz? Cuidado para não viciar! Começa com ma aula semanal e logo, logo que fazer todo dia.



Músculos e feminilidade: Drew Jacoby/Lines Ballet